(...) filmes "À deriva" e "Quando você viu seu pai pela última vez?"
Os dois filmes mostram adolescentes perplexos diante da desconstrução da imagem que faziam dos próprios pais. Ambos os roteiros se concentram no [i]turnig point[/i] que se dá quando descobrimos que nossos super-heróis não são super coisa nenhuma: têm fraquezas defeitos e um comportamento que, se um dia nos orgulhou, agora nos envergonha. Alguém consegue passar batido por essa mudança radical de perspectiva ?
O cinema só ajuda quando nos oferece um close nessa etapa inquietante em que nada mais parece ser como era. A adolescência ainda é considerada apenas uma fase de desbunde, de alegrias, de dúvidas e de pequenas trangressões assistidas, mas é bem mais do que isso. Não só é o momento em que se começa a abandonar a infância e entrar no mundo adulto (todos à deriva!), mas também o momento em que passamos a enxergar o que não gostaríamos de ver - ganhamos uma amplitude de horizonte que nos tonteia. A realidade cai no nosso colo de forma abrupta, agora fazemos parte da vida pra valer, é hora de começarmos a cuidar de nós mesmos, e então ? Preparados ?
Ninguém nunca está suficientemente preparado para descobrir que o amor é cheio de sutilezas, e que nossos pais, assim como nós, possuem desejos secretos e são capazes de abafá-los, mas também capazes de não abafá-los, levando seus impulsos às últimas consequências, a despeito de tudo e de todos, incluindo os filhos. Afinal, a garotada está se divertindo tanto que mal consegue perceber o que se passa em volta, não é assim? Pais preferem acreditar que adolescentes só enxeragm o próprio umbigo, quando na verdade os moleques são providos de uma antena de alcance supersônico. Só que eles ainda não possuem as ferramentas necessárias para racionalizar sobre o que estão descobrindo. Então sentem. Sentem feito bichos, sentem feito doidos, sentem com 100% de potência emocional. E ainda são taxados de rebeldes sem causa, quando causa é o que mais lhes sobra.
Alguém conseguirá mudar essa história? Impossível impedir o espanto. Ele faz parte da biografia de todos nós.
- Trecho do texto de Martha Medeiros , À deriva

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