“Notícias de uma Guerra Particular” exibe de forma muito realista e profunda o combate ao tráfico de drogas pela Polícia do Rio de Janeiro. O média-metragem, bem produzido de João Moreira Salles e Kátia Lund, de 1999, explora um mundo raramente visto de dentro pelos meios de comunicação, expondo pontos de vista distintos a partir de depoimentos de personagens reais.
Sem maniqueísmo e mostrando a realidade por meio da câmera, o filme é dividido em três partes. A primeira apresentada é a Polícia, na qual o Capitão Rodrigo Pimentel, do batalhão de Operações Especiais (BOPE), comenta a “guerra particular” entre policiais e traficantes, levando ao título do documentário. O Chefe da Polícia Civil na época, Hélio Luz, esclarece suas opiniões, questionando a produção de armas e sendo incoerente ao dizer que o Rio é uma cidade calma. Outro depoimento do mesmo bloco é o de Paulo Lins, autor do filme Cidade de Deus. Ele explica o início do tráfico e faz uma interessante comparação com o período do Ato Institucional número cinco (AI-5), “quando cinco controlavam 60, ao contrário de hoje”. Dando voz aos traficantes, os diretores nos revelam a fundo como tudo funciona, motivo para entrada dos jovens no crime e seus posteriores envolvimentos. Os testemunhos são corajosamente coletados de bandidos, presos, ex-traficantes e dois menores, que participam do que eles chamam de “missões”, começando, assim, a se relacionarem com a marginalidade.
Um ponto primoroso do média-metragem são as comparações, tanto no que diz respeito à linguagem verbal quanto à visual. Há cenas em que é mostrado o arsenal de armas da Polícia, contrastando com a artilharia pesada dos criminosos, que é apresentada em detalhes por uma criança de 10 anos. Em outra parte, o traficante, depois de matar o chamado “inimigo”, relata que se sente normal. Já o Capitão Pimentel confirma: “dever cumprido”. O lado dos moradores, que estão no meio do fogo cruzado, também é mostrado. Eles comentam que os traficantes ajudam, defendem e, ao mesmo tempo, intimidam a comunidade.
O realismo transmitido se dá, primeiramente, pela fotografia do documentário, de Walter Carvalho, usando cenas reais de arquivos de TVs ou de outros documentários; pelos depoimentos fornecidos e pela eficaz abertura jornalística, que apresenta ao espectador dados reais e alarmantes do tráfico de drogas. Outro mérito do filme é o final. São projetados, na tela, nomes de policiais, meninos de rua, traficantes e até inocentes mortos na “guerra”. Com tantas vítimas, gradativamente, ela vai ficando preta, até não restar nenhum espaço em branco, ou subjetivamente, até não sobrar qualquer sobrevivente. Um ponto negativo é o campo auditivo. A trilha sonora é repetitiva e há dificuldade na captação do áudio, impedindo que se entenda algumas falas.
Por fim, “Notícias de uma Guerra Particular” nos ajuda a compreender o problema do tráfico mais amplamente, expondo a visão de todos os lados envolvidos. Infelizmente, é baseado em fatos reais.

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